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Artigo adicionado em 27/10/2006, às 04:51

ENTREVISTA EXCLUSIVA: ANDRÉ DAHMER, O PAI DOS MALVADOS
“Os mentirosos são seres maravilhosos que levantam a nossa auto-estima”

Por
Thiago "El Cid" Cardim


Ah, estes maravilhosos fenômenos internéticos…Não, não estou falando d’A ARCA, caro leitor, mas sim dos Malvados – cujas tirinhas politicamente incorretas, publicadas pelo autor André Dahmer no site www.malvados.com.br, rapidamente se transformaram de “pequeno projeto de vingança pessoal” em “projeto que é a vingança pessoal de muita gente”.

O humor ácido, sarcástico, violento e sacana da série, que mostra uma dupla de seres indefinidos e rabiscados (Girassóis? Filhotes de Leão?) tripudiando das situações mais absolutamente banais e corriqueiras do nosso cotidiano, conquistou de vez uma legião de fãs – e virou até livro, publicado pela Editora Gênese (e que você pode comprar clicando aqui).

Os Malvados estão também na Revista Bizz e no Jornal do Brasil – e agora de passagem aqui n’A ARCA, nesta entrevista exclusiva com o pai das criaturas. Dahmer fala sobre o início da carreira (“nunca pensei que os Malvados seriam tão lidos”), sobre suas inspirações (“aqui no meu trabalho, faço de cabeça umas três ou quatro tirinhas por dia”), sobre suas amizades suspeitas (Allan Sieber e Mr.Manson, do site www.cocadaboa.com) e ainda destila um pouco de veneno sobre a classe dos jornalistas. “Não considero jornalismo um trampo sério, de confiança”.

A ARCA: André, a pergunta inicial será substituída por uma daquelas piadas infames que você já deve ter ouvido zilhões de vezes: Dahmer não reflete nenhum parentesco com Jeffrey Dahmer, o notório canibal do Wisconsin, não é?
André Dahmer: É, este cara deve ser um primo distante mesmo. Toda família tem um parente meio fora dos padrões, né? Este maluco matou, fritou e comeu uns garotinhos…virou até filme: “Dahmer, Mente Assassina”. Vagabundo me manda direto o pôster deste filme por e-mail. Mas realmente não conheço e nem quero conhecer o cara…

A ARCA: Quando você colocou os Malvados pela primeira vez no papel, foi uma coisa absolutamente ingênua (“ah, que legal, minha própria tirinha”) ou você já pensava em transformá-los em livro e camiseta como parte de um plano que incluiria ainda a publicação na “Revista Bizz” e no “Jornal do Brasil”?
Dahmer: Comecei na maior ingenuidade mesmo. Nunca pensei que os Malvados seriam tão lidos e muito menos publicados em jornais e revistas. Jamais. A maior prova disto: as primeiras 300 tirinhas foram todas feitas em baixa resolução, 72dpi, só para internet. Um dia começaram a me procurar para editar um livro com as tirinhas. Só então o gênio aqui descobriu que era melhor começar a fazer as tiras em alta resolução, né? Deu um puta trabalho refazer tudo, mas o livro saiu.

A ARCA: Como foi que os Malvados surgiram, aliás? A pergunta pode parecer obrigatória, mas a curiosidade me consome – eles são apenas e tão somente a sua realização pessoal, uma forma de mandar o mundo para o inferno com estilo?
Dahmer: Quadrinho é mesmo uma profissão de fé, tipo padre e professor. Porque ninguém faz quadrinhos pensando: “isto vai me dar muito dinheiro”. Realmente sempre fui um cara muito indignado com as coisas erradas desta vida. Neste ponto, pode até ser que os Malvados sejam minha vingança pessoal, como escreveu um jornal de São Paulo dia destes. Mas tem também, antes da realização pessoal, um componente importante de vocação, de paixão pelo que eu faço.

A ARCA: Uma dúvida pertinente: o que diabos são os Malvados? Bichinhos sem nome? Flores maltratadas? Rabiscos assustadores com olhos e bocas? Ou só reflexo da sua preguiça como desenhista? 🙂
Dahmer: Sou ilustrador de profissão, mas realmente não gosto muito de desenhar. Os Malvados foram chamados de “flores” ou “girassóis” pela imprensa, não por mim. Quem cunhou o termo foi Sérgio Maggi, do Globo. Eu não me importo e até prefiro deixar estas especulações do que é o meu trabalho para os jornalistas, estes mestres na arte de inventar definições: “quadrado mágico”, “geração internet”…Eles precisam disto para vender jornais.

A ARCA: Dá para perceber que os Malvados são inspirados diretamente nas situações do dia-a-dia. No entanto, em que lugar você encontra mais material para as tiradas da dupla?
Dahmer: Material não falta, né? Aqui no meu trabalho, faço de cabeça umas três ou quatro tirinhas por dia. Claro que depois eu esqueço boa parte, se meu caderninho não estiver no bolso. Mas costumo anotar quando uma boa idéia passa por perto. Porque boa idéia é que nem mulher: é pecado jogar fora.

A ARCA: E em que momento os Malvados se transformaram neste verdadeiro fenômeno internético, linkados e reverenciados em tantos e tantos blogs? Qual é, afinal, o segredo do sucesso dos Malvados?
Dahmer: Quando comecei a publicar na rede, em 2002, eu não conhecia exatamente o poder da internet. Sou bicho do mato: não ouço música, não gosto de sair. Minha esposa me ensina a usar o telefone toda vez que eu perco um (já perdi seis). Mas em algum momento, instalei um contador de visitas no site e vi que ele era muito lido. Isto foi em 2003, foi um choque para mim, cara. Hoje eu sei que existe muita comunidade grande na rede sobre os Malvados. A maior delas, no Orkut, conta com mais de 12.000 pessoas. Eu próprio recebo hoje uma média de 10.000 visitantes únicos/dia. Mas não sei uma fórmula exata para isto. Acredito que conteúdo original e de qualidade sejam um bom caminho.

A ARCA: Quais são os seus mestres nos quadrinhos, as suas principais inspirações neste trabalho (que bonito…)?
Dahmer: Pode parecer engraçado, mas li pouco quadrinho na vida. Depois que passei a fazer, me interessei mais pelo assunto. Os mestres? Angeli e Laerte entre os nacionais (este último, fez o prefácio do meu livro). E (Will) Eisner e o velho (Robert) Crumb entre os gringos, homens corajosos que abriram caminho na floresta escura.

A ARCA: A pergunta anterior era, na verdade, uma preparação para esta: você já não está de saco cheio das comparações entre os Malvados e as Cobras, do Veríssimo?
Dahmer: Já compararam muito com as Cobras e também com os Fradinhos do Henfil, é bem verdade. Muito provavelmente por terem um traço “pobre” como o dos Malvados. Me dá orgulho a comparação, mas eu não conhecia o trabalho do Veríssimo e só havia passado o olho no trampo do Henfil. Eu era moleque quando estes dois trampavam quadrinhos.

A ARCA: Um amigo, fã dos Malvados, se refere a eles como “o humor de mau humor”. A frase não deve ser nova (aliás, se não me falha a memória, virou até título de matéria no “Jornal da Tarde”), mas a pergunta permanece: hoje em dia, as pessoas riem mais do humor negro, do politicamente incorreto, do sarcasmo, da desgraça, da dor e do sofrimento alheios? Isso é um sinal dos tempos? 🙂
Dahmer: Rir da própria desgraça é um dom dos homens, uma maneira de se preservar mesmo. Diante da patética velhice, da corrupção endêmica, da miséria, da burrice cega da humanidade, da inevitável morte…o que deveríamos fazer? Eu tenho vontade de rir só de pensar nestas coisas…

A ARCA: Já que falei no tal “humor de mau humor”: sei que, depois do sucesso, você acabou dando algumas entrevistas e o seu site foi comentado em diversas matérias e reportagens. Qual foi a descrição mais babaca do que seriam os Malvados que você já viu?
Dahmer: Eu não leio muito o que sai na imprensa. Tenho fobia mesmo. Peço só que não cortem ou editem o que falei, mas mesmo assim…Só fico meio puto quando os caras pegam uma frase que falei num contexto qualquer e botam grandona na matéria. Eu aprendi desde cedo que os jornais mentem muito e informam pouco: na verdade, promovem o espetáculo da notícia, uma notícia para vender e por vezes, tendenciosa. Você está lendo uma matéria sobre vinhos e descobre que ela foi feita para arrumar os anunciantes da página ao lado…Eu não considero jornalismo um trampo sério, de confiança. Me desculpem mesmo, mas não considero.

A ARCA: Pelo que dá para perceber, você é amigo de figuras como Allan Sieber e Mr.Manson, a cabeça por trás do Cocadaboa. Neste caso em particular, cabe o ditado do “diga-me com quem andas e eu te direi quem és”?
Dahmer: Nós somos amigos muito próximos, nos encontramos sempre que dá. Joguei muito pôquer com o Manson, me considero herói de entrar num jogo para mentirosos contra o mestre das mentiras. E tenho um enorme carinho pelo Allan, um cara de grande talento, de uma força criativa inesgotável, um lutador. Eu aprendi a gostar deles da maneira como são, mas temos linhas de trabalho e pensamentos diferentes. O que não impede de estarmos sempre juntos para beber, comer carne e falar mal do mercado editorial brasileiro.

A ARCA: Marivaldo, Malvados…vai conta aí, de verdade: você não é mesmo o responsável pelo blog “Os Bondosos”, uma iniciativa “anti-Malvados”?
Dahmer: É, me acusaram na época de auto-promoção. Mas eu não sou o Manson, que vive de criar boatos na rede. Eu não sei se estes evangélicos existiam de verdade ou se era sarro de leitor meu, mas eu não criei nada disto. Se eu tivesse que bolar algo neste sentido, não inventaria algo fácil como um grupo de evangélicos revoltados com meus quadrinhos, né? Mas se for verdade, é bom que exista gente que não goste. Eu não faço quadrinhos para agradar, sabe?

A ARCA: No site dos Malvados, você se descreve como o “segundo mais miserável quadrinista brasileiro em atividade (o primeiro é Allan Sieber)”. Mas no seu site pessoal, é possível ver que você tenta tirar uns trocados como pintor, no sentido mais tradicional da palavra. O que te dá mais prazer: os quadrinhos ou as telas? E o que dá mais dinheiro?
Dahmer: Me considero desde sempre um pintor. Estou no ofício desde garoto, desde 16 anos. Isto quer dizer que tenho 15 anos de pintura nas costas. Sou muito prolífico e pintei literalmente centenas de quadros em acrílico. Dei tudo, vendi uns 15 deles na vida. É mesmo uma pena constatar que hoje eu vendo muitos desenhos originais dos Malvados na rede e só estou vendendo quadros em acrílico agora, por conta da notoriedade dos Malvados. Só agora eles querem comprar meus quadros, entende? Em relação ao dinheiro, não sei o que dá mais ou menos dinheiro, de verdade. Toda a parte de grana e vendas eu delego para minha esposa, que é chamada carinhosamente pelos meus amigos de “a babá do Dahmer”. Não sei quanto entra de grana, não sei quanto sai. Mas vivo bem melhor que a maioria dos brasileiros, tenha certeza disto.

A ARCA: Depois do livro e da conquista do espaço na grande imprensa, quais são os seus próximos planos para os Malvados?
Dahmer: Certamente não irei construir um parquinho temático. Tenho muito respeito pelo meu trabalho, não quero nunca que a parada vire uma indústria fria e impessoal. Sempre alerto minha mulher para isto, recebemos propostas das mais esdrúxulas. Não posso perder o rumo do meu trampo por causa de dinheiro, tenho que ser dono dos direitos sobre meu trabalho, não posso vender os Malvados para estes caras da publicidade (como já me propuseram algumas vezes). Ter dinheiro é bom, mas ter respeito é ainda melhor.

A ARCA: Se algum maluco com muito dinheiro quisesse transformá-los em filme (hey, não olhe assim, o Mutarelli já conseguiu), quem você escolheria para os papéis do Malvadão e do Malvadinho?
Dahmer: Vejo isto com bons olhos, já recebi umas propostas e tal…mas sou meio conservador e temeroso do resultado disto. Se o Otto (Guerra, de “Wood & Stock”) quisesse fazer, acharia ótimo. O cara fez o filme do Angeli com a direção de arte primorosa do meu amigo Jack Kaminski, um dos maiores desenhistas deste planeta. Gênio mesmo. Mas não fico pensando nisto não. Se rolar, só quero que seja fiel e bem realizado.

A ARCA: Sei que talvez me arrependa por esta, mas…deixe uma última mensagem para os leitores d’A ARCA.
Dahmer: Queridos, saiam da internet e peguem uma boa praia…

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