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Artigo adicionado em 27/10/2006, às 04:53

::: OK ::: ENTREVISTA EXCLUSIVA: SPACCA (sem imagens)
O homem que está transformando a nossa história em quadrinhos.

Por
Thiago "El Cid" Cardim


O paulistano João Spacca de Oliveira, 41 anos, é mais conhecido pelo nome do meio – com o qual já assinou uma enorme gama de trabalhos como quadrinista, cartunista, chargista, animador, ilustrador de livros infantis, didáticos e de treinamento empresarial, diretor de arte publicitário…Haja saco para tantas atribuições, não?

Hoje em dia, no entanto, Spacca tornou-se célebre no universo das HQs nacionais por sua excelente graphic-novel Santô e os Pais da Aviação (Companhia das Letras) – uma deliciosa biografia histórica de Santos Dumont e suas relações com outros homens geniais e suas máquinas maravilhosas que também tentaram alçar vôo. O projeto foi tão bem aceito que rendeu ao simpático artista nada menos que quatro prêmios no HQ Mix, o Oscar dos quadrinhos nacionais: “melhor cartunista”, “melhor desenhista nacional”, “melhor roteirista nacional” e “melhor edição especial nacional”.

Além de uma possível adaptação para cinema de “Santô”, Spacca está envolvido com mais dois projetos similares: um sobre o pintor francês Debret, que veio ao Brasil no século XIX, e outro sobre o escritor Monteiro Lobato. Nesta entrevista exclusiva, ele comenta um pouco dos dois, revela o processo de criação de “Santô” e ainda dá uma geral sobre a sua carreira – que incluiu até uma breve passagem pelos palcos como Cazuza em uma banda cover. Confira:

A ARCA: Antes de começar a entrevista propriamente dita, tenho uma confissão a fazer: a lembrança mais antiga que tenho do seu trabalho remete aos meus 13 anos, quando entrei escondido na área de filmes pornôs da locadora do meu bairro e, entre as capas estreladas por aquelas incansáveis gostosonas, vi um desenho seu, em um filme sobre zoofilia ou algo assim (!!!), no qual um sujeito agarrava apaixonado uma gloriosa vaca. Desculpe. Precisava dizer isso.
Spacca: Sim, essa capa foi feita para a produtora Introduction. Essa mesma empresa usa, até hoje, um cartaz onde se lê “Alugue Pornô, Sem Vergonha”, com um outro desenho – mas o desenho original e a idéia eram meus. A propósito, você não deve ter visto o filme, mas os dois garanhões, bêbados, não conseguem satisfazer a vaquinha.

A ARCA: Falando sério agora…quatro prêmios HQ Mix e muitas críticas positivas depois, o que mudou na carreira deste tal de Spacca? Ficou mais fácil descolar um espaço neste hermético mercado brasileiro de quadrinhos?
Spacca: O que mudou foi que abriu uma porta em meu futuro. No presente, não mudou muita coisa – continuo precisando fazer mil coisas ao mesmo tempo para pagar as contas. Mas já tenho a perspectiva de publicar álbuns de quadrinhos nos próximos dez ou vinte anos, e pouco a pouco ir construindo uma “obra” e, quem sabe, receber uma quantia razoável de direitos autorais.

A ARCA: Esta é óbvia, mas necessária: em que momento você se decidiu entrar de cabeça no projeto de transformar a história de Santos Dumont em um gibi? Que objetivo (e que público, é claro) você pensava atingir?
Spacca: Tentei entrar de cabeça muitas vezes, mas algo sempre impedia. A penúltima vez foi quando eu fiz alguns estudos de finalização a nanquim, e fiquei muito insatisfeito com o resultado. Tentei desenhar um exército marchando para a guerra, com ramos nas baionetas, passando por uma vila e as moças acenando para os soldados. O desenho estava OK, mas a arte-final não me satisfez. Isso foi em 1999-2000. De lá para cá fiz um “curso intensivo” de pena e nanquim, estudando alguns cobras da HQ de Western, que é o feijão-com-arroz das HQs históricas.

A ARCA: Quanto tempo de pesquisa este projeto demandou e como funcionou o seu processo de trabalho? Algo na história é algum tipo de “liberdade poética” da sua parte?
Spacca: A princípio, a pesquisa foi aleatória, dispersa. Como o roteiro não estava pronto, aconteceu de juntar muito material visual sobre uma parte da história e negligenciar outra. Hoje eu faço, antes de mais nada, o roteiro. Muito pouco do “Santô” é liberdade poética ou, eu diria, solução dramática. Por exemplo: sei que o relógio de pulso foi dado a SD pelo relojoeiro Cartier num jantar, no apartamento de Santô, mas preferi desenhar o dirigível estacionado à porta da relojoaria. Quase tudo é verdadeiro, pesquisado e, se eu não soube como aconteceu, deduzido. Ainda em fase de rough, eu tinha criado uma cena de inauguração do Aeroclube em uma espécie de teatro, com os convidados subindo uma escadaria luxuosa. Mas quando fui fazer a arte-final, descobri (graças a um recorte de jornal enviado pela Jacqueline Brendel, bisneta de Emmanuel Aimé, colaborador de SD) que a inauguração do Aeroclube havia sido num parque, a céu aberto e de dia, e nos meus livros a fotografia desse evento estava identificada como “primeira ascensão do Brasil” e só. Mas era o Aeroclube, e SD era um dos fundadores. Uma “liberdade poética” foi a aparição do ator Jean Reno no papel do primeiro balonista. A casa da Princesa Isabel, com papagaios e mucamas, foi outra.

A ARCA: Você não achou que estaria mexendo em um “vespeiro” histórico ao tocar na questão do “pai de aviação” de maneira absolutamente antiufanista, dividindo os méritos da criação entre Dumont e outros nomes como os americanos Wright e o francês Clément Ader? Não teve medo da reação do público?
Spacca: Acho até hoje. Não tive medo, tive foi a expectativa de que apareceriam pessoas defendendo violentamente SD, o que não aconteceu!!! Talvez porque eu tenha apresentado os fatos de forma bem documentada. Porém, a história é sutil mesmo. Os americanos voaram antes, de forma imperfeita (tanto que não conseguiram repetir o primeiro vôo, sem lançar mão da, digamos, “catapulta”). SD voou depois, com um avião limitado, mas fez a primeira decolagem. O que sei, porém, é que entre os especialistas, está aparecendo uma forma de tolerância. Uma bisneta dos Wright recentemente promoveu um evento com réplicas do 14-bis e Demoiselle nos EUA. Os Wrights eram sérios e bateram um monte de recordes, mas o Clément Ader foi, inclusive para algumas testemunhas de suas experiências, um fiasco.

A ARCA: Pelo que foi divulgado recentemente, você já tem outros quadrinhos de cunho histórico na ponta do lápis – um álbum sobre o pintor Debret e a tão aguardada graphic-novel a respeito do nosso eterno Monteiro Lobato. Fale um pouco a respeito de cada um destes novos projetos?
Spacca: O Debret já entreguei, estamos decidindo o título e a capa. É uma HQ curta, colorida, de 18 páginas, acompanhada de reproduções do pintor, mais cronologia e galeria de esboços. O livro todo terá 48 páginas. O Debret integrou a Missão Francesa que veio ao Brasil em 1816, refugiada devido à queda de Napoleão, abrigar-se com a corte portuguesa que veio ao Rio justamente por causa de Napoleão…Lobato é um projeto antigo. Desenho e sonho com adaptações de Lobato desde a infância. Uma vez, pensei em fazer “A Chave do Tamanho” em HQ porque ela lida com personalidades e eventos reais (2a Guerra Mundial, Hitler, Stalin, Roosevelt). Eu tinha pensado em situar no tempo em que o Lobato foi preso (1941) e misturar as histórias. Mas o projeto virou outra coisa, a história do Lobato querendo ser um grande industrial do petróleo, e se envolvendo com tramas políticas, agentes sabotadores, a censura do Getúlio, a prisão. E a obra infantil sendo elaborada no meio disso tudo. O roteiro está praticamente pronto.

A ARCA: Santos Dumont, Debret, Monteiro Lobato e até adaptações literárias de Machado de Assis (no projeto “Literatura2”). Você está querendo se especializar neste tipo de obra, mais calcada em cunho histórico? Ou você tem algum outro plano completamente diferente em mente para o futuro?
Spacca: Tenho algumas ficções em mente, mas elas também são derivadas de clássicos. Como um livro famoso que pode ter outros desdobramentos.

A ARCA: Você acha, aliás, que a geração “Marvel-DC” acostumada às histórias de super-heróis ultramusculosos e de uniformes colantes, pode se interessar mais pela história de um patrimônio histórico como Santos Dumont se a história estiver contada em quadrinhos?
Spacca: Não é tanto pelo tema “heróis musculosos”; mas ouvi dizer outro dia que o modo como essas histórias estão sendo contadas está muito hermético. Eu fico cansado e desorientado de ver o quadrinho de supers atual, acho fragmentado demais – e olhe que sou fã do Cavaleiro das Trevas. Não faço questão de que as pessoas leiam minhas HQs porque o tema é importante, mas porque está contada de um jeito interessante, denso ou divertido, sempre tento fazer com que seja envolvente.O que pode ser estranhado é outra coisa: Santô e outras HQs minhas terão, eventualmente, momentos até piegas. Não é só humor, não é só aventura, é um pouco de tudo. Neste sentido, apesar de ser acessível a crianças, é uma HQ adulta. Os adultos são mais leves do que os adolescentes, que precisam mais de emoções fortes 🙂

A ARCA: “Santô” é, na sua opinião, o tipo de material que caberia bem em uma sala de aula como material didático de apoio?
Spacca: Sim, acho que sim. Mas prefiro que “Santo” seja lido por prazer e interesse espontâneo, pois fiz o possível para que ele permanecesse de pé.

A ARCA: E quanto a outras mídias: me recordo que a Cia Catibrum de Teatro de Bonecos fez uma montagem baseada no “Santô e os Pais da Aviação”. Um filme talvez seja o próximo passo?
Spacca: A adaptação do grupo Catibrum foi maravilhosa. A história foi bem simplificada, os personagens reduzidos, e transformados em seres híbridos (homem-máquina, homem-balão etc). Só vendo. O diretor Lelo foi além do Santô e levou a história para uma dimensão do cartum e do desenho infantil, que também é a minha praia. Quanto à adaptação para cinema, as coisas ainda não se concretizaram e não posso abrir o bico ainda.

A ARCA: O que o Spacca anda lendo em termos de quadrinhos, atualmente?
Spacca: Quadrinho, quase nada. Acabo de ganhar um monte de gibis da Conrad, então terei alguma lição de casa para fazer…estou lendo muito material para os próximos projetos, tanto livros como material colhido na Internet. Por exemplo, estou estudando agora os uniformes do exército francês e os veleiros do século XVIII. Eu leio muito para trabalho.

A ARCA: Vamos mudar um pouco de assunto: sei que você já chegou a trabalhar com ilustração de livros infantis, correto? Para o artista acostumado a lidar com a linguagem dos quadrinhos de humor mais adulto, foi um desafio adaptar o seu traço e o seu estilo ao que seria mais adequada para a criançada?
Spacca: Não, desenhar para criança sempre foi tranqüilo. Pelo contrário: o que tive de aprender foi a linguagem politizada da charge. A única coisa que me assustou, a princípio, foi que o desenho para livros infantis tem um lado mais poético e gráfico, e em certas épocas eu me sentia muito “grosso” e óbvio demais para fazer algo à altura de uma Eva Furnari, por exemplo. Mas aprendi, vendo o trabalho do Orlando e outros, a produzir um cartum com colorido mais sofisticado.

A ARCA: Como eu sou pai de uma criança de 3 anos de idade, não poderia deixar de pedir para você comentar um pouco os rumos e o futuro do simpático projeto “BabyDicas”, que conta com o seu traço.
Spacca: Ah, isso não foi pra frente… Cometemos o erro de formatar um projeto de modo muito fechado, e depois procurar parceiros (patrocinadores) que aceitassem o projeto como foi bolado. O certo é você primeiro fazer a parceria, e criar algo que aproveite alguma necessidade já existente desse parceiro. Esse é o caminho comercial mais correto.

A ARCA: Sua passagem pelo mundo da publicidade também é conhecida. Seria o mercado publicitário a chance ideal para quem trabalha com quadrinhos poder se manter de verdade, ou é possível viver de HQs no Brasil?
Spacca: Mesmo o mercado publicitário é muito instável. Eu tenho bons trabalhos hoje, mas não tenho a menor garantia de que vão me chamar no mês que vem. O que eu faço principalmente nessa área – storyboard – é algo que não se faz mais, em muitas agências. Publicidade não basta, eu preciso fazer de tudo um pouco. Por exemplo, tenho feito bastante ilustrações para treinamento de equipes de vendas, com cartuns didáticos.

A ARCA: Você chegou a lidar com animação também? Pretende voltar a trabalhar com isso? Pelo que ouvi, você esteve diretamente envolvido no desenvolvimento do Bond Boca, da Cepacol…
Spacca: Não, eu animei o personagem criado pelo Cláudio Sendim para a agência Caio Domingues, em 1983 (meu Deus, quanto tempo). Animei os dois primeiros filmes e fiz a “maquetagem” (planejamento) do terceiro, para a produtora Briquet Filmes. Não, não pretendo voltar a animar. Gostaria, sim, de tomar parte em desenvolvimento de filmes, mas como planejador, ou dirigindo.

A ARCA: Tem uma coisa que, se eu não perguntar antes do final da entrevista, um dos membros da nossa equipe vai ficar muito magoado (ok, Benício?): você foi a voz da banda “Avenida Brasil”, ao lado de outras feras do nanquim como o Paulo Caruso. Como foi a sua incursão pelo mundo da música? Você ainda prefere o lápis ao microfone?
Spacca: Lápis. Eu cantei com o Paulo Caruso em 89-90, fizemos muitas excursões em outros estados; depois interpretei o Cazuza em uma banda cover, cheguei a largar a Folha pela segunda vez por causa disso. Foi um sucesso de crítica e um fracasso de bolso…

A ARCA: Para finalizar: que personagem contemporâneo, mais especificamente em evidência nos últimos cinco anos, renderia uma boa “bio graphic-novel” e por quê?
Spacca: Não sei. Estou pensando há cinco minutos e não me ocorre ninguém. Acontece que, nos meus projetos, eu tenho procurado levantar informações ocultas na época – cartas, diários, acordos, coisas que os protagonistas não sabiam. Tenho interesse em personagens que estão no olho do furacão, dos grandes acontecimentos, diante de uma grande chance ou um grande perigo. Então, provavelmente um dia vamos olhar nossa época e ver que algum personagem obscuro era muito relevante, ou que algo estava acontecendo e ninguém, ou poucos, haviam se dado conta. Seja quem for esse personagem, sua história só virá à tona no futuro.

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